|
Esta semana conclui o tempo especial de preparação que a Igreja nos propõe para que possamos viver, com a devida disposição de ânimo, o Mistério Central de nossa Redenção. Ao recordar a entrada triunfante de Nosso Senhor Jesus Cristo em Jerusalém, neste Domingo de Ramos, haveremos de pensar na sempre mutável e frágil condição humana... Hoje damos hosanas a nosso Salvador e amanhã pedimos a gritos sua crucifixão, com nossos pecados.
Ao escutar o relato sobre sua Paixão, segundo São Lucas (Lc 22, 14-23, 56) nos colocaremos ao lado de Pedro, para dizer-Lhe na Missa: «Senhor, estou pronto a ir contigo tanto para a prisão como para a morte.», e provavelmente horas mais tarde, diante das tentações, diremos também com ele: «Não o conheço... Não sei o que queres dizer». O tema bíblico de reflexão proposto por Sua Santidade Bento XVI para esta Quaresma foi tirado do Evangelho segundo São João: «Olharão para aquele que transpassaram» (Jo 19,37), para nos convidar a meditar profundamente sobre o infinito amor e a imensa misericórdia que Deus nos revelou com a morte de Jesus no Calvário. É que na Cruz de Cristo nos encontramos com o dramático momento em que se concretiza não somente o mistério de nossa Redenção, mas também o ensinamento fundamental que Ele veio nos trazer com relação ao Reino de Deus. Um ensinamento prático, que por meio dos fatos dá testemunho de máxima coerência com tudo o que Jesus nos ensinou através de sua vida pública. Em sua mensagem para a Jornada Mundial das Missões em 2002 (Nº 4), João Paulo II nos dizia: "Da Cruz, Jesus indica as condições para poder praticar o perdão. Ao ódio, com que os seus perseguidores o tinham pregado na Cruz, responde rezando por eles. Não só os perdoa, mas continua a amá-los, a desejar o seu bem e, por isso, intercede por eles. A sua morte torna-se verdadeira e própria realização do Amor." Em sua proposta de reflexão quaresmal, Bento XVI nos diz agora: "A resposta que o Senhor deseja ardentemente de nós é antes de tudo que acolhamos o seu amor e nos deixemos atrair por Ele. Mas aceitar o seu amor não é suficiente. É preciso corresponder a este amor e comprometer-se depois a transmiti-lo aos outros: Cristo «atrai-me para si» para se unir comigo, para que eu aprenda a amar os irmãos com o seu mesmo amor." A tarefa não é simples, mas na Eucaristia encontraremos sempre as graças necessárias para conseguir realizá-la algum dia. Bem nos disse o Santo Padre em sua Exortação Apostólica "Sacramentum Caritatis", ao referir-se à necessidade de uma verdadeira transformação moral por meio da recepção deste Sacramento: ...participando no sacrifício da Cruz, o cristão comunga do amor de doação de Cristo e se capacita e se compromete a viver esta mesma caridade em todas as suas atitudes e comportamentos de vida. De fato, «No próprio «culto», na comunhão eucarística, está contido o ser amado e o amar, por sua vez, os outros. Uma Eucaristia que não se traduza em amor concretamente vivido, é em si mesma fragmentária». (Da Carta Encíclica Deus Caritas est. Nº 14. Roma, 25 de dezembro de 2005). Mais tarde, acrescenta com ênfase: «A transformação moral, que o novo culto instituído por Cristo implica, é uma tensão e um anseio profundo de querer corresponder ao amor do Senhor com todo o próprio ser, embora conscientes da própria fragilidade. Aquilo de que estamos a falar aparece claramente no relato evangélico de Zaqueu (Lc 19, 1-10): depois de ter hospedado Jesus na sua casa, o publicano sente-se completamente transformado; decide dar metade dos seus haveres aos pobres e restituir quatro vezes mais a quem roubou. A tensão moral, que nasce do ato de hospedar Jesus na nossa vida, brota da gratidão por se ter experimentado a imerecida proximidade do Senhor.» (Sacramentum Caritatis. 82. Bento XVI. Roma, 22 de fevereiro de 2007). Oxalá olhando cada dia, Àquele que cada dia transpassamos, nós nos sensibilizemos mais com a dor e o amor de Cristo, e ali encontremos humildemente as graças que nos tornem capazes de nos assemelhar mais a Ele, pois é disso que se trata. Não são novos conceitos, mas colocar em prática o que já "conhecemos", e até mesmo às vezes tão bem pregamos. Misericórdia, Senhor! Ajuda-nos a ressuscitar Contigo como homens novos. Feliz Páscoa para todos! (*) O autor é Diretor-Geral do Apostolado da Nova Evangelização (ANE) |